Artigo: Inovação cultural e processo criativo no traje do Homem da Meia-Noite
Publicado em 06 de fevereiro por Marcela Assis
Artigo de Jacque Tamboo, Analista de Soluções Educacionais da CESAR School
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Fundado no ano de 1932, o Homem da Meia-Noite é um dos mais fortes símbolos do Carnaval de Pernambuco. A figura do calunga surgiu pelas ladeiras de Olinda pela primeira vez no dia 02 de Fevereiro, data dedicada à Iemanjá, o que amplia a aura de mistério e encantamento da figura mítica, associada ao candomblé.
A esperada saída da sede, que fica em frente à igreja do Rosário dos Homens Pretos, no Bonsucesso, Olinda, conta com uma comunidade apaixonada e seguidores devotos. A aparição do calunga acontece pontualmente à meia-noite do sábado de Zé Pereira, e marca ritualmente a abertura do festejos de momo no estado.
Entre tantas histórias, mistérios e crenças que este quase um século de história carrega, estão as que cercam o processo de desenvolvimento do traje do Homem da Meia-Noite, juntamente à manutenção do desfile ao o que reforça seu papel na preservação da memória coletiva e da tradição cultura atuando assim como agente de fomento cultural, fortalecendo práticas artísticas, educativas e simbólicas na cidade de Olinda. Pode-se considerar, portanto, que o Homem da Meia-Noite atua como símbolo midiático e cultural, atravessando gerações e consolidando-se como referência identitária do Carnaval pernambucano.
Em reconhecimento à tal relevância histórica, social e cultural, o Clube de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco no ano de 2006 (GASPAR, 2007; PERNAMBUCO, 2006), título que reforça a importância do calunga sorridente e galanteador enquanto manifestação da cultura popular pernambucana.
O Homem da Meia-Noite, neste sentido, ultrapassa a condição de objeto festivo, assumindo dimensão mítica e comunicacional. Seu traje, renovado anualmente, desempenha papel central na narrativa do desfile, funcionando como artefato cultural capaz de traduzir temas, homenagens e posicionamentos simbólicos, ao mesmo tempo em que preserva a tradição e dialoga com a contemporaneidade.
No contexto da inovação esta manifesta-se como processo de ressignificação simbólica profundamente enraizado na cultura popular, afastando-se de uma compreensão estritamente tecnológica para assumir caráter cultural, social e projetual. A atualização anual do traje configura-se como prática inovadora ao promover a reinterpretação contínua de símbolos tradicionais, garantindo a permanência da manifestação por meio da reinvenção estética e narrativa.
Nesse sentido, a inovação opera como estratégia de preservação cultural, na qual a tradição não é interrompida, mas constantemente reativada e atualizada (CANCLINI, 2015). O processo criativo torna-se, assim, espaço de experimentação situado, em diálogo com o território, a memória coletiva e os saberes populares, evidenciando o papel do design como mediador entre passado e presente (ESCOBAR, 2018).
Ao articular curadoria cultural, construção de narrativas visuais e tradução contemporânea de referências simbólicas, o traje do Homem da Meia-Noite consolida-se como artefato cultural capaz de produzir novos sentidos a partir de elementos reconhecidos, reafirmando a cultura popular como campo vivo, dinâmico e fértil para práticas de inovação cultural e reconstrução simbólica (MANZINI, 2017).
Design, inovação e metodologia de criação do traje do Homem da Meia-Noite do Carnaval de 2023
A criação do traje do Homem da Meia-Noite para o Carnaval de 2023 insere-se em um contexto singular, marcado pelo retorno do desfile às ruas após dois anos de interrupção em decorrência da pandemia de Covid-19. Esse cenário conferiu ao projeto uma responsabilidade simbólica ampliada, uma vez que a indumentária do calunga assumiu papel central no reencontro entre a manifestação cultural e o público, amplamente destacado pela mídia local e nacional (TERRA, 2023; iG, 2023).
Nesse contexto, a atuação do design ultrapassou a dimensão estética, configurando-se como prática de mediação: o traje do calunga precisava trazer em si, para além da intenção simbólica do Carnaval a mensagem sobre o resgate do ato de brincar e estar de volta às ladeiras.
Como designer responsável pelo traje de 2023, o processo criativo foi orientado pelo conceito Brincantes, que propôs uma homenagem aos sujeitos que constroem, vivenciam e mantêm viva a cultura popular pernambucana. A metodologia adotada partiu de uma pesquisa cultural e simbólica aprofundada, envolvendo referências históricas, personagens emblemáticos da cultura popular e manifestações carnavalescas tradicionais.

Esse levantamento fundamentou a curadoria dos homenageados e orientou as decisões estéticas e narrativas do projeto, entendendo o traje como dispositivo comunicacional capaz de materializar visualmente o conceito proposto.
A tradução do conceito Brincantes em linguagem visual ocorreu por meio da articulação entre cores, formas, materiais e símbolos, compondo uma narrativa estética coerente e reconhecível.
Elementos como ombreiras externas, fitas de cetim nas cores tradicionais verde e branca, e símbolos gráficos: entre eles estrela, sol e coração, foram incorporados ao traje como signos visuais que dialogam com a ideia de brincar, performance e coletividade. Essas escolhas evidenciam o design como prática situada, que se constrói a partir do território, da memória e das dinâmicas culturais locais. Estes símbolos foram encontrados e mapeados em pesquisa, na feitura das fantasias feitas pelos brincantes, como signo dos blocos preferidos, ou mesmo como adornos estéticos de fácil aplicação.
Dentro do contexto estético e de escolhas de materiais ancorados pelo contexto do tema, fez-se ainda a escolha pelo uso de bordados que remetem aos trajes de cortejos e grupos de brincantes tradicionais (reisado, maracatu e caretas), bem com o uso de espelhos recortados com os símbolos encontrados nestes trajes. A ideia de trazer os espelhos aplicados em todo o traje teve também seus significados simbólicos: fazer a imagem do brincante folião se perceba refletido na roupa do calunga, e é uma referência ao espelho de Iemanjá, retomando assim a conexão histórica e mística com a gênese do Homem da Meia-Noite.
A metodologia de criação adotada compreendeu o traje como artefato cultural em constante atualização, respeitando a

identidade visual histórica do Homem da Meia-Noite, ao mesmo tempo em que introduziu novas camadas de sentido. Tal abordagem reforça a compreensão do design como processo de ressignificação simbólica, no qual a inovação emerge da releitura de elementos tradicionais, e não da ruptura com eles: manter a tradição e respeitar o simbolismo dos elementos dando a estes um novo sentido, ou uma nova roupagem, com respeito e sensibilidade.
Como resultado, pode-se perceber a recepção positiva do público e a ampla visibilidade midiática do desfile de 2023 indicam a eficácia dessa mediação projetual, evidenciando o traje como elemento estruturante da experiência carnavalesca e da narrativa cultural do evento (TERRA, 2023; iG, 2023).
Considerações
O projeto do traje do Homem da Meia-Noite em 2023 reafirma o papel do designer como mediador cultural e agente de inovação simbólica, atuando na articulação entre tradição, contemporaneidade e identidade. O processo criativo, ancorado em pesquisa, curadoria e tradução visual, demonstra como o design pode contribuir para a preservação dinâmica da cultura popular, fortalecendo sua permanência no imaginário social por meio da criação situada e sensível ao contexto cultural, traduzindo inovação como ponte para o fortalecimento de elementos tão importantes nossa cultura popular.
Referências
Amorim, Maria Alice (2014), Patrimônios Vivos de Pernambuco; 2. ed. rev. e amp – Recife: FUNDARPE
ESCOBAR, Arturo. Designs for the pluriverse: radical interdependence, autonomy, and the making of worlds. Durham: Duke University Press, 2018.
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: EDUSP, 2015.
iG GENTE. Homem da Meia-Noite é ovacionado em seu retorno após dois anos; veja. iG, 19 fev. 2023. Disponível em: https://gente.ig.com.br/carnaval/2023-02-19/carnaval-bloco-homem-da-meia-noite-olinda.html. Acesso em: 1 fev. 2026.
GASPAR, Lúcia. O Homem da Meia-Noite. Pesquisa Escolar Online. Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 2007. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/o-homem-da-meia-noite/. Acesso em: 1 fev. 2026.
JORNAL DO COMÉRCIO. Homem da Meia-Noite: veja imagens e momentos da volta para a rua no Carnaval de Olinda. Recife, 19 fev. 2023. Disponível em: https://jc.uol.com.br/pernambuco/2023/02/15182782-homem-da-meia-noite-veja-imagens-e-momentos-da-volta-para-a-rua-do-homem-da-meia-noite-no-carnaval-de-olinda.html. Acesso em: 1 fev. 2026.
MANZINI, Ezio. Design: quando todos fazem design. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2017.
MOREIRA, Andressa Urtiga. “Brincante é um estado de graça”: sentidos do brincar na cultura popular. Dissertação (Mestrado em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde) — Universidade de Brasília, Brasília, 2015. Disponível em: http://repositorio.unb.br/handle/10482/19128. Acesso em: 28 jan. 2026.
PERNAMBUCO. Secretaria de Cultura do Estado. Homem da Meia-Noite – Patrimônio Vivo de Pernambuco. Recife, 2006. Disponível em: https://www.cultura.pe.gov.br/pagina/patrimonio-cultural/imaterial/patrimonios-vivos/homem-da-meia-noite/. Acesso em: 17 jan. 2026.
TERRA. Homem da Meia-Noite homenageia ‘brincantes’ em reencontro com foliões de Olinda. Terra, 17 fev. 2023. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/carnaval/2023/homem-da-meia-noite-homenageia-brincantes-em-reencontro-com-folioes-de-olinda,e0a81f323783c39be0bb4d919b5e369dgzxawxur.html. Acesso em: 17 jan. 2026.