Quando a arte ocupa a cidade: Raoni Assis fala sobre criação, memória e futuro
Publicado em por Marcela Assis
Se você transita entre os prédios Tiradentes e Brum da CESAR School, provavelmente acompanhou uma transformação acontecendo bem diante dos seus olhos. Ao lado do Brum, uma parede que fazia parte da paisagem cotidiana ganhou novas formas, texturas, cores e, pouco a pouco, uma personagem que parece escapar do próprio muro.
A intervenção Cacheiro viajante, Cuandu muda o tempo, do artista pernambucano Raoni Assis, integrou a programação do SPA das Artes Recife 2026. Realizada na fachada do imóvel da Rua do Brum, 101, voltada para a Avenida Cais do Apolo, a obra foi construída ao vivo e propôs uma experiência que ultrapassa os limites da pintura mural.
O trabalho combina pintura e assemblagem de objetos reutilizados para criar um mural escultórico de grande escala. No centro da composição está uma personagem híbrida, inspirada no ouriço-cacheiro e na figura do caixeiro viajante: alguém que atravessa territórios carregando consigo objetos, histórias, memórias e saberes.
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A escolha do espaço também aproxima a intervenção de um lugar dedicado justamente ao encontro entre diferentes formas de pensar e criar. Na CESAR School, criatividade e inovação fazem parte de uma mesma experiência de aprendizagem: ideias ganham forma quando diferentes repertórios se encontram, quando se experimenta, se constrói e se olha para um problema por outros ângulos.
Foi nesse espírito que estudantes puderam acompanhar o processo de criação da obra e participar de uma oficina prática com Raoni, aproximando-se não apenas do resultado final, mas das escolhas, experimentações e caminhos que fazem parte de uma criação artística.
A trajetória de Raoni traduz bem esse movimento. Ilustrador, artista visual e quadrinista pernambucano, formado em publicidade, ele transita entre ilustração, pintura, escultura, muralismo, animação, publicações, design gráfico e direção de arte. Desde 2005, realizou exposições em Pernambuco, São Paulo e Portugal, além de trabalhos em diferentes cidades e países.
No muralismo, seus trabalhos também passaram a integrar o cotidiano de diferentes territórios do Recife, incluindo projetos como Colorindo o Recife, Mais Vida nos Morros e Megamural.
Para falar sobre essa experiência, conversamos com Raoni Assis sobre a origem do personagem, a relação entre arte e cidade, o uso de objetos descartados, o processo de criação diante do público e o que diferentes linguagens podem ensinar sobre criatividade.
“O mundo começa em Recife também”: uma conversa com Raoni Assis
A obra Cacheiro viajante, Cuandu muda o tempo traz uma personagem híbrida, entre o ouriço-cacheiro e o caixeiro-viajante, carregando objetos, histórias e memórias. De onde surgiu essa imagem e o que ela representa para você?
O ouriço-cacheiro é um animal da nossa fauna e, ultimamente, começou a aparecer com mais frequência nas áreas urbanas, sendo empurrado para esse ambiente. É um retrato da violência ambiental que o mundo vem passando. A imagem dele sendo obrigado a se mudar e carregando seus pertences e suas coisinhas ficou remexendo nas minhas ideias. Eu já vinha rascunhando alguma coisa nessa linha há um tempo.
A obra mistura pintura mural e assemblagem de objetos reutilizados, fazendo com que o personagem “escape” da parede e ocupe o espaço urbano. Como é transformar uma ideia que começa no papel em uma obra tridimensional e de grande escala?
Quando a gente começou a pensar em uma proposta para o SPA das Artes, eu queria experimentar possibilidades de intervenção que até então não tinha executado. A ideia de usar objetos do cotidiano que não eram mais utilizados ou que seriam descartados para criar uma tridimensionalidade na obra, junto ao conceito da personagem, foi se materializando no rascunho e criando outras camadas para essa proposta.
Sendo uma intervenção pública, acho que a possibilidade de esses objetos serem levados por pessoas em situação de rua, por exemplo, faz parte da fragilidade que a gente imaginou. O próprio personagem se desfazendo e se diluindo no ambiente…
Eu já faço esculturas e bonecos para animação em stop motion e já tinha intimidade com esse tipo de montagem, mas agora a escala é realmente uma novidade. Está sendo desafiador, mas, ao mesmo tempo, é muito instigante e divertido. Estou curtindo muito o processo.
Você já deixou sua marca em diferentes lugares do Recife e de Olinda. O que muda no seu processo criativo quando a obra nasce diretamente para a cidade e passa a fazer parte do cotidiano das pessoas?
Acho que essa é a grande questão da arte urbana. De alguma forma, a gente “obriga” o público a conviver com uma obra que se comunica de várias formas. Cada observador vai passar por ela dentro do seu próprio caminho, sem necessariamente ter pensado ou se “preparado” para fazer uma leitura disso.
Acho que criar nesse contexto e nessas horas exige um carinho diferente. É preciso pensar no que você vai dizer e tentar ser mais direto do que o usual. Na galeria, a arte consegue se explicar e apresentar um texto curatorial que pode preencher algumas lacunas ou até dar sentido a um espasmo que seja. Acho que, na rua, o convite é mais amplo e merece uma atenção maior.
Mesmo nos museus públicos, sem ingresso e tal, não é todo mundo que vai acessar. Eu acho que a arte tem que ser pública. Às vezes, prefiro uma arte numa camisa ou numa caneca a uma obra numa galeria.
A intervenção foi construída diante do público, e o próprio processo passou a fazer parte da obra. O que você gostaria que as pessoas percebessem ou experimentassem ao acompanhar essa construção acontecendo ao vivo?
Eu fico meio encabulado. Vim do desenho e da ilustração. Mesmo fazendo algumas coisas na rua, sempre me pega essa coisa das pessoas passando, comentando e vendo o processo… Fico com vergonha às vezes.
Mas acho massa ao mesmo tempo. Acontece muito de mudar uma coisa ou outra pela observação de alguém. Às vezes, já no rascunho, alguém faz um comentário, e a gente acaba absorvendo e direcionando isso na peça.
Você transita por várias linguagens, da ilustração à pintura, escultura, muralismo, animação e direção de arte. O que essas diferentes experiências acrescentam ao seu jeito de criar?
A ideia às vezes já vem pronta. Penso numa frase, e ela já tem cara de filme. Ou começo um rascunho, e ele já vai se montando, e eu penso: “Isso aqui ficava massa numa aquarelona”. Mas, às vezes, a gente vai lapidando e mexendo, e a ideia vai mudando de forma também.
O último curta que a gente fez, Alguma coisa com plutônio, era um texto que escrevi quando tinha uns 15 anos. Vez ou outra, eu o encontrava anotado e pensava que podia ser um quadrinho, por exemplo. No processo de rascunhar as páginas desse quadrinho, a gente também estava pensando numa proposta para um curta, e esse texto se encaixou.
Enquanto a gente montava o projeto e começava a descrever algumas cenas, aconteciam situações bem parecidas no mundo… O incêndio na Grécia, desastres “naturais”… Uma carinha de fim de mundo… E a ideia foi se moldando ao contexto também. Acho que é sempre por esse caminho que eu vou me guiando.
E, para fechar: se você pudesse deixar uma ideia, provocação ou conselho para os estudantes da CESAR School que acompanharam essa intervenção, o que diria a eles?
O mundo é hoje. Não existe amanhã para mim (risos). Acho que o mundo começa em Recife também. A gente tem que olhar para o futuro com cuidado, para não deixar de olhar para o próprio chão e se ligar para não cair.