Entre a pesquisa e o mercado: Tatalina Oliveira assume a coordenação do Mestrado Profissional em Design da CESAR School

“Ensinar ninguém sabe. O que a gente precisa é saber aprender.” A frase veio de Seu Antônio, um artesão que trabalha com cerâmica no Recife, no entorno do CESAR. Tatalina (Táta) Oliveira, designer no mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil e doutora em Design pela UFPE,  a ouviu durante uma conversa casual e nunca mais esqueceu. Até hoje ela volta a esse encontro, e a tantos outros que acumulou ao longo da carreira, para pensar sobre educação, pesquisa e mercado.

Não por acaso, sua própria trajetória foi construída menos por respostas prontas e mais pela disposição de aprender, desaprender e atravessar fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento. É com esse espírito que Táta assume a coordenação do Mestrado Profissional em Design (MPD) da CESAR School.

Pesquisadora, professora, designer e especialista em Antropologia Social e Cultural  pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ela chega ao programa trazendo a visão de que o design acontece justamente nos encontros entre pessoas, disciplinas, culturas, tecnologias e formas distintas de enxergar o mundo.

Quando o design encontrou a antropologia

Táta costuma brincar que começou a estudar design em uma época em que os cursos tecnológicos ainda eram raridade. Integrante da segunda turma do curso oferecido pelo então CEFET-PE, atual Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), iniciou sua trajetória movida pela curiosidade e pelo encantamento com as possibilidades criativas da área.

Mas o que começou como interesse pelo fazer logo se transformou em uma inquietação mais profunda, que ganhou força durante o mestrado.  “Percebi que precisava entender melhor como as pessoas se relacionam entre si e com o mundo construído”, lembra. De repente, o design deixou de ser apenas uma ferramenta para projetar objetos, serviços ou experiências, e passou a ser uma forma de compreender pessoas, culturas e modos de viver.

A inquietação a levou para Portugal, onde aprofundou os estudos em Antropologia Social e Cultural, uma experiência que ampliou a forma como enxergava o mundo e consolidou um interesse que permanece até hoje.  Investigar como cultura, comportamento e design se atravessam segue guiando os passos da pesquisadora.

Não por acaso, suas pesquisas costumam olhar para temas ligados a grupos historicamente minorizados, populações negras e indígenas, pessoas neurodivergentes e tecnologias produzidas fora dos centros tradicionais de poder.

Tatalina Oliveira assume coordenação do Mestrado Profissional em Design da CESAR School
Um pé na academia, outro no mercado

Depois de quase 15 anos dedicados à pesquisa e à docência, Táta encontrou no CESAR a oportunidade de ampliar o próprio campo de atuação e mergulhou no universo dos projetos de inovação.

Ela passou a atuar em iniciativas de alta complexidade para organizações como a Petrobras, aplicando experiências em UX Design e Design Research em contextos marcados por inovação, negócios e transformação digital. “Foi quando percebi ainda mais claramente que esses dois mundos podem, e devem, caminhar juntos”, comenta.

A experiência reforçou uma convicção que agora se torna um dos pilares de sua atuação à frente do mestrado: a ideia de que academia e mercado não são universos paralelos, mas espaços complementares na construção de conhecimento e inovação.

Pesquisa que não fica na prateleira

Se existe uma ideia que a coordenadora gostaria de ver desaparecer, é a noção de que a pesquisa acadêmica termina quando a dissertação é defendida. Para ela, conhecimento só alcança seu potencial máximo quando encontra pessoas, problemas e contextos reais: “A gente precisa superar a ideia de que uma pesquisa nasce para ficar numa estante de biblioteca.”

A proposta dela para o MPD é fortalecer ainda mais a conexão entre produção científica, inovação e impacto, aproveitando a proximidade entre CESAR School, CESAR e Porto Digital. Em poucos lugares, argumenta, pesquisadores conseguem transitar com tanta naturalidade entre grupos de pesquisa, empresas, startups, projetos financiados e iniciativas de inovação.

Um dos exemplos que a entusiasma é o trabalho desenvolvido por pesquisadores do grupo SANKOFA, voltado para tecnologias que apoiam processos de ensino e aprendizagem de estudantes autistas. Entre os resultados está uma dissertação que deu origem a um livro indicado ao Prêmio Jabuti Acadêmico.

Para Táta, iniciativas como essa mostram que pesquisa aplicada não é um conceito abstrato, mas um conhecimento gerando transformação concreta na vida das pessoas.

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O que significa projetar em tempos de inteligência artificial?

Em um cenário marcado pela expansão da inteligência artificial, a coordenadora acredita que designers têm uma responsabilidade ainda maior. Afinal, são eles que ajudam a desenhar sistemas, fluxos, experiências e relações que influenciam diretamente a forma como as pessoas vivem, trabalham e interagem com o mundo.

“O que projetamos transforma ambientes, comportamentos e até a maneira como percebemos a realidade.” Por isso, ela defende uma abordagem crítica, regenerativa e responsável do design.

A inteligência artificial, em sua visão, não deve substituir capacidades humanas, mas potencializá-las. O desafio não está em escolher entre pessoas ou tecnologia, mas em compreender como ambas podem atuar de forma complementar. “As habilidades técnicas podem ser aprendidas. O que diferencia um profissional é a capacidade de articular conhecimentos, perspectivas e experiências distintas.”

Capacidade imaginativa, pensamento crítico, repertório diverso e habilidade para conectar áreas diferentes do conhecimento serão, segundo ela, competências cada vez mais importantes para os designers do futuro.

Um convite para quem quer ampliar seu repertório

Ao falar com futuros estudantes, Táta não se dirige apenas a designers, faz questão de ampliar o convite para profissionais da tecnologia, educação, comunicação, saúde, ciências sociais e de tantos outros campos. Isso porque acredita que a riqueza do design nasce justamente do encontro entre diferentes formas de pensar e interpretar o mundo. “Uma das coisas mais bonitas da educação é a troca entre repertórios distintos.”

Essa visão resume bem o momento vivido pelo Mestrado Profissional em Design da CESAR School. Sob a nova coordenação, o programa reforça sua vocação de aproximar pesquisa, inovação e impacto, formando profissionais capazes de transitar entre tecnologia e humanidade, reflexão e ação.

Em um mundo cada vez mais atravessado por transformações tecnológicas, o desafio talvez não seja apenas criar algo novo. É criar soluções que façam sentido para as pessoas, respondam a problemas reais e contribuam para construir futuros mais desejáveis.

É nesse território que o design encontra sua potência e onde o Mestrado Profissional em Design da CESAR School pretende continuar atuando.

Formação e atuação

Designer no CESAR e doutora em Design pela UFPE, Tatalina Oliveira também é mestre em Design pelo PPGDesign da UFPE e especialista em Antropologia Social e Cultural pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Lidera o grupo de pesquisa Sankofa e desenvolve investigações nas interseções entre design, cultura, tecnologia e inclusão social. 

 

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